Não consigo imaginar como seria viver em ditadura. Apesar de todas as histórias, descrições e filmes sobre o assunto, a minha cabeça não é capaz de recriar esse cenário vivido em Portugal antes do dia 25 de Abril de 1974. Não consigo imaginar. Muitas foram as pessoas exiladas e torturadas apenas por pensarem de forma diferente, por ansiarem querer saber mais e formar as suas próprias opiniões, por ansiarem liberdade. Não tenho familiares ou pessoas próximas que tenham vivido de perto as consequências do Salazarismo, e por isso não as conhecerei a fundo, mas sei reconhecer a importância que a Revolução dos Cravos teve para o povo da altura e para todos os portugueses que se lhe seguiram. E louvo aqueles que tiveram a coragem para lutar pela liberdade e pelo direito de ser (pensar, opinar, escrever, partilhar), sem munições e sem sangue derramado. Não poderia ter sido um Revolucionar pela Liberdade de outra maneira.
Inevitavelmente, dei por mim a pensar: como seria a minha vida se as amarras de então ainda hoje prevalecessem? Teria tido a oportunidade de, enquanto mulher, tirar um curso superior de engenharia na capital, ao mesmo tempo que saía de casa dos pais para morar numa residência mista de estudantes? E todos os temas e ideais debatemos em contexto universitário? Entre pessoas de todas as classes, de todos os géneros, com ideais às vezes tão diferentes? Teria tido a oportunidade de realizar um interrail pela Europa com amigos, só porque partilhávamos o sonho da aventura e de conhecer além-fronteiras? Teria tido a oportunidade de ir sozinha para um país diferente do meu, sem a assinatura do meu pai ou do meu marido arranjado, e por duas vezes? Teria?
Ninguém é totalmente livre, a não ser que habite sozinho no mundo, isso é certo. Existe todo um conjunto de circunstâncias que nos toldam social e emocionalmente, desde o país em que nascemos aos nossos próprios sentimentos, que toldam as nossas escolhas e acções. A nossa liberdade individual terminará onde começar a liberdade de um nosso par, ou da nossa sociedade, pelo que existem leis a ser cumpridas para o bem-estar de todos nós. Mas a liberdade, o livre-arbítrio, esses continuam presentes, as pessoas poderão escolher cumprir ou não cumprir a lei (muitas vezes questionável). Concordar ou não concordar, e agir em coerência com isso. O lidar com as consequências fará parte do direito à liberdade, a partir do momento em que temos liberdade. É preciso não esquecer que ainda existem muitas lutas a travar para a promoção universal da liberdade e dos direitos humanos, e sobre isto teríamos pano para mangas para continuar a conversa. No entanto, hoje também quero lembrar que tenho a oportunidade de aqui expressar a minha opinião publicamente, sem qualquer receio. Assim, livre.

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